lunes, 22 de febrero de 2016

UNA CANCIÓN PATRIÓTICA: GRÂNDOLA VILA MORENA DE ZECA AFONSO

En 1971, Zeca Afonso incluyó este precioso himno rebelde en su disco "Cantigas do Maio", tema que padeció el acoso de la censura salazarista en Portugal. Tres años después, los Capitanes de Abril lo usarían como contraseña lírica y musical de la Revolución de los Claveles, al transmitirlo por la Radio Renacimiento en Lisboa.
 
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade
 
Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
 
Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
 
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena
 
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade
 
Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade.
 
 

POESÍA PORTUGUESA Y FADO (7): LUA EXTRAVAGANTE (FERNANDO PESSOA / VITORINO)

He aquí el compadrazgo de Pessoa y Vitorino a la luz de la luna.

Lua Extravagante : Fado Pessoa

Música: Vitorino
Letra:
Fernando Pessoa

O tempo que hei sonhado
quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
foi só a vida mentida
de um futuro imaginado!

Aqui à beira do rio
sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
figura, anónimo e frio,
a vida vivida em vão.

A'spr'ança que pouco alcança!
que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
sobe mais que a minha 'spr'ança,
rola mais que o meu desejo.

Ondas do rio, tão leves
que não sois ondas sequer,
horas, dias, anos, breves
passam - verduras ou neves
que o mesmo sol faz morrer.

Gastei tudo que não tinha.
Sou mais velho do que sou,
a ilusão, que me mantinha,
só no palco era rainha:
despiu-se, e o reino acabou.

Leve som das águas lentas,
gulosas da margem ida,
que lembranças sonolentas
de esperanças nevoentas!
Que sonhos, o sonho e a vida!

Som morto das águas mansas
que correm por ter que ser,
leva não só as lembranças,
mas as mortas esperanças
mortas, porque hão-de morrer.

Ondas passadas, levai-me
para o olvido do mar!
Ao que não serei legai-me
que cerquei com um andaime
a casa por fabricar.

POESÍA PORTUGUESA Y FADO (6): NÂO ME CHAMEN PELO NOME (ANTÓNIO BOTTO / MÍSIA)

¡Con ustedes: Mísia y António Botto!

Nâo me chamen pelo nome
MÍSIA / ANTÓNIO BOTTO
Poema. António Botto
Música. José António Amaral

Quem é que abraça o meu corpo
Na penumbra do meu leito?
Quem é que beija o meu rosto,
Quem é que morde o meu peito?

Quem é que fala da morte
Docemente ao meu ouvido?
- És tu, senhor dos meus olhos
E sempre no meu sentido.

A tudo quanto me pedes
Porque obedeço, não sei:
Quiseste que eu cantasse
Pus-me a cantar e chorei.

Não me peças mais canções
Porque a cantar vou sofrendo;
Sou como as velas do altar
que dão luz e vão morrendo.

Não me chamem pelo nome
que me deram ao nascer;
Sou como a folha caída
que não chegou a viver.

Meus olhos que por alguém
deram lágrimas sem fim,
Já não choram por ninguém
- Basta que chorem por mim.

O que é que a fonte murmura?
O que é que a fonte dirá?
- Ai, amor, se houver ventura,
Não me digas onde está.

POESÍA PORTUGUESA Y FADO (5): ESTATUA FALSA (MARIO DE SÁ CARNEIRO / MÍSIA)

¡Es el turno de la pareja integrada por Mário de Sá Carneiro y Mísia!


Estátua Falsa


Só de ouro falso os meus olhos se douram;
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minha'alma desceu veladamente.

Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,
Gomos de luz em treva se misturam.
As sombras que eu dimano não perduram,
Como Ontem, para mim, Hoje é distancia.

Já não estremeço em face do segredo;
Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida corre sobre mim em guerra,
E nem sequer um arrepio de mêdo!

Sou estrêla ébria que perdeu os céus,
Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida ao ar...

Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão' (1914).

POESÍA PORTUGUESA Y FADO (4): FADO PORTUGUÉS (JOSÉ RÉGIO / AMÁLIA RODRIGUES)

¡Un poeta y una gran fadista cantando muy juntos!
Fado Portugués. José Régio

O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

Ai, que lindeza tamanha,
meu chão , meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.

Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.

Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.

Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro velero
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

José Régio, in 'Poemas de Deus e do Diabo' (1925)

POESÍA PORTUGUESA Y FADO (3): ERROS MEUS (CAMOENS / AMÁLIA RODRIGUES)

He aquí el tercer surco de esta maravillosa yunta: La voz de Amália le da una pertinente revisita a este soneto estupendo de Camoens.
 
 

POESÍA PORTUGUESA Y FADO (2): LIANOR (CAMOENS-AMÁLIA RODRIGUES)

He aquí la segunda muestra de nuestra Antología Mínima del Fado y su yunta con la poesía portuguesa.